terça-feira, 8 de abril de 2014

MÁSCARA - Rubem Alves


Antes de existirem como objetos usados para esconder o rosto, as máscaras moram dentro de nós com entidades do nosso psiquismo. Todas as vezes que olhamos para o rosto e ele nos parece misterioso, lugar onde um segredo se esconde, estamos pressupondo que ele não é um rosto, mas uma máscara, uma dissimulação.

Está dito na palavra “pessoa”, que vem do latim “persona”, que quer dizer “máscara de teatro”. O teatro é algo que precisa de um público para existir. Sem um público ele não tem sentido.

As “personae”, as máscaras de teatro, portanto, são usadas pra um público. O público vai ao teatro para ver a “máscara”, a “representação” de um papel. Não interessa o rosto verdadeiro por detrás da máscara. Esse rosto desconhecido é ignorado pelo público, não tem nome. São máscaras que têm nome. O meu nome, Rubem Alves, não é o nome do meu eu verdadeiro. É o nome da máscara pela qual sou reconhecido pelo público. É o nome do papel que esse público pede que eu represente. A aplicação do nome “persona”, máscara de teatro, a nós mesmos, implica no reconhecimento implícito de que a vida é uma farsa, uma representação, um carnaval de Veneza.

Não somos nós que pintamos as nossas máscaras. Álvaro de Campos dizia que ele era o “intervalo” entre o seu desejo, o seu eu verdadeiro e aquilo que os desejos dos outros haviam feito dele, a máscara. Essa máscara que se chama pessoa e que é representada pelo meu nome é uma evidência de que eu não me pertenço. Pertenço ao público. Pela máscara torno-me um peixe apanhado nas malhas das redes do público. Pela máscara não sou meu. Sou deles. Aí eles me fritam do jeito que desejam.
Mas as máscaras de papel e tinta padecem de grave limitação. Chega sempre a hora em que elas têm de ser tiradas. Mas não será possível simplesmente tirar a máscara de carne e osso sermos nós mesmos, sem nenhum disfarce?

A criança sempre horroriza o público. A criança ainda não aprendeu o papel, não usa máscara, não participa da farsa, não representa. Seu rosto e o seu eu são a mesma coisa. A qualquer momento a verdade que não devia ser dita pode ser dita pela sua boca.
As máscaras de carnaval podem ser colocadas e tiradas pela própria pessoa. Mas a máscara colada no nosso rosto só pode ser retirada por uma outra pessoa. Ela só se desprega da nossa pele quanto tocada pelo toque do amor. E assim sabemos que estamos amando: quando, diante daquela pessoa, a máscara cai e voltamos a ser crianças...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: Todo comentário no Blog passa por uma moderação para depois ser postado. Isso evita a ação de spammers que querem atrapalhar o bom funcionamento do blog.